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AS FRONTEIRAS DO AMOR
Margareth de Mello F. dos Reis

Numa relação a dois, imaginar dois corações fundindo-se num só parece imagem muito bonita e romântica.
Mas contém a armadilha da falta de limites entre os parceiros, que impede o respeito à individualidade e a saúde do próprio relacionamento.
Todos nós no mundo ocidental, impelidos pelos cânones de nossa cultura judaico-cristã, temos uma tendência muito forte ao apego.
Tratamos as pessoas como se fossem coisas, objetos que podemos possuir.
Nosso apego às coisas, pessoas e sentimentos, por sua vez, dificulta o desprendimento necessário para sermos livres internamente.
Assim, ficamos presos às pessoas mas não ficamos conosco.
Neste universo heterogêneo, as partes que o compõem podem estar ordenadas de diversas maneiras.
O universo é um processo dinâmico: produz mudanças, movimentos e inter-relações recíprocas.
Não existe uma parte fixa.
Tudo é móvel e está sempre em constante movimento.
Apesar dessa falta de homogeneidade universal, temos a ilusão de podermos nos tornar todos iguais.
E essa pretensão de igualdade é o nosso grande problema, uma vez que o que dá movimento à tudo é a diferença.
Para analisarmos o relacionamento de um casal, temos de verificar que tipo de estrutura foi edificada ao longo do relacionamento.
Observar se há uma hierarquia, se ela é fixa ou móvel.
Se existe para certos assuntos e para outros não.
Precisamos identificar a fronteira que sustenta essa relação.
Fronteira é o “limite”.
A perda da fronteira significa a perda da diferenciação, isto é, da própria identidade de cada um dos parceiros.
Fronteira é um conceito importante porque não é só geográfico ou físico.
É também o que diferencia o Eu do Tu.
É tudo que divide e ao mesmo tempo une.
Quando, neste confronto de limites, o pior lado de um se junta ao pior lado de do outro, mas ao mesmo tempo não queremos ver o pior lado do outro”, está presente uma patologia que pode se desenvolver na vida a dois: a mistura e a diluição das fronteiras individuais, perfuradas pela inveja, rivalidade, agressões, conflitos.
Ficamos, então cuidando do outro e do que rejeitamos no outro, sem nos darmos conta das características de nossa própria individualidade.
Ou dos limites que nos diferenciam do outro.
Antes de mais nada, para estabelecer uma relação a dois saudável e viável, precisamos aprender a nos diferenciar como pessoas.
Em primeiro lugar, é necessário um esforço para este casal se diferenciar dos “próprios pais”.
Afinal, antes de nos constituirmos como casal pertencíamos ao nosso grupo primário, como filhos.
Nosso desenvolvimento leva à necessidade de inicialmente, delimitarmos uma linha divisória entre nós e nossos próprios pais.
É de acordo com estas fronteiras primordiais que se desenvolvem os fenômenos psicológicos de uma relação.
A linha fronteiriça serve para preservar a identidade e para assegurar a comunicabilidade.
Ela nos assegura a própria identidade mas nos impõe um paradoxo: ser você mesmo, agradar o outro e ainda ter uma fusão que apaga, temporariamente, a fronteira com o outro (na intimidade sexual, como por exemplo).
Mas só esta diferenciação segura permite, no relacionamento a dois, enfrentar desequilíbrios temporários, uma condição imprescindível para que ocorram trocas sem ansiedades intoleráveis.
Tão importantes quanto os significados pessoais que cada um desenvolve ao longo da vida é o que acontece entre as pessoas.
Toda existência envolve o EU e o TU.
Não há existência de um, isoladamente.
É neste espaço onde se consideram os fenômenos existentes entre A e B que podemos encontrar problemas como a disfuncionabilidade de limites impedindo a satisfação de um casal.
De um lado estão presentes as fronteiras permeáveis.
Aquelas cuja indiferenciação é a palavra de ordem.
Tudo é capaz de abalar este tipo de relacionamento, porque não há uma preservação das hierarquias naturais.
Em outras palavras: a rotina do bebê é que manda na vida do casal, o humor da empregada abala sua tranqüilidade, a família de um dos pares da relação ou a presença dos filhos impede a intimidade do casal, e assim por diante.
Esquece-se, por exemplo, que filhos tem de ser filhos.
Funcionalmente podem até ser amigos.
A proposta “vamos conversar como amigos”, não pode desconsiderar a realidade de que são pais e filhos.
Misturar os papéis, indo para a farra juntos, procurando os mesmos amigos ou as mesmas paqueras, leva a um conflito.
Passa a existir uma rivalidade e os pais são vistos como inimigos ou, no mínimo, competidor, tornado-se uma ameaça para os filhos.
Casais que nunca estabeleceram fronteiras em sua intimidade sexual ou que as perderam depois do nascimento dos filhos, em geral, depois que eles crescem, reclamam de terem feitos tudo por eles e não serem reconhecidos por isto.
Nos casos em que as tais fronteiras foram perfuradas pelas diferenças não acomodadas antes da chegada dos filhos na vida do casal, também há um impedimento para a satisfação no convívio a dois.
Há o que também podemos chamar de fronteiras impermeáveis.
São aquelas que caracterizam os casais rígidos, cuja preocupação com o próprio Eu não permite arranjos satisfatórios na relação a dois.
Inflexibilidade é a palavra de ordem nesse tipo de casal.
Os papéis são exercidos esteriótipadamete pelo que foi assimilado durante a história de vida passada , sem um questionamento crítico da adequação de cada um no relacionamento atual.
Ë uma relação pontuada pelo impedimento para a mudança.
Impera a imposição de manter tudo sempre igual, sem nenhuma alteração.
Falta contato com o mundo e o seu respectivo movimento, e isso é sinônimo de morte, algo tão patológico quanto manter as fronteiras frouxas para qualquer coisa.
Fronteira é limite, é amor.
Amor é algo cuidadoso, exercido com ternura.
É dessa forma que a fronteira de uma casa indica quem pode entrar.
Não é qualquer um que tem trânsito naquele espaço, estabelecem-se regras de como se comportar uns com os outros, uma legislação interna rege aquela família, para o bem estar de todos os que compartilham da mesma constelação familiar.
As fronteiras seguras servem também para garantir a comunicabilidade, permitir a passagem de informações de uma geração para outra, selecionando influências favoráveis e descartando as outras.
Um casal com fronteiras seguras, que suportem os eventos inesperados e as dificuldades temporárias sem acusações, sem retaliações e sem mágoas acumuladas, pode encontrar saídas sempre mais criativas e adequadas às suas necessidades.
A ausência ou a impermeabilidade das fronteiras costuma provocar vários desastres, principalmente na vida sexual dos casais.
A falta de desejo sexual decorrente da falta de intimidade para todos os assuntos que envolvem o relacionamento a dois é um exemplo disso.
Se um não consegue ser compreendido pelo outro em questões que lhe são significativas, vai sendo corroído por uma mágoa ou desencanto na relação.
Isso acaba afetando a motivação para o encontro mais íntimo, e este passa a ser evitado.
Outra conseqüência disso pode ser a falta de excitação para uma relação sexual satisfatória.
É o corpo sinalizando aquilo que o casal não consegue comunicar adequadamente.
A dificuldade eretiva pode ser compreendida, neste caso, como o pênis dizendo “não estou satisfeito com esta situação”.
Ou a mulher sem lubrificação suficiente para hospedar este pênis na relação sexual pode decorrer de uma insatisfação mais ampla no relacionamento a dois.
Ou com dificuldade de experimentar um orgasmo por falta de sintonia erótica neste envolvimento conjugal.
Estes são alguns efeitos resultantes na vida de um casal que não torne as suas fronteiras visíveis o suficiente para serem reconhecidas, respeitadas e, principalmente, adequadas conforme a relação amorosa que se estabelece.
O que dá movimento é a diferença e não a igualdade, por isso devemos ver o EU e o TU da vida a dois como regiões, continentes, que precisam encontrar um código comum para se comunicarem.
Quando, num relacionamento a dois, não se consegue reconhecer a natureza destes problemas mais íntimos, os conflitos se instalam e corroem a convivência.


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