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CORTANDO O CORDÃO UMBILICAL
Valentina Pigozzi

Hoje em dia, têm se tornado freqüentes as discussões a respeito da assim chamada adolescência tardia.
É relativamente fácil determinar quando a adolescência se inicia.
Mas quando é que se poderia dizer que ela deu lugar à vida adulta? É do senso comum que o momento que inaugura adolescência na vida de uma pessoa coincide com a puberdade, que é justamente o processo orgânico, que envolve alterações físicas e hormonais de maturação do nosso corpo.
Diz-se que a puberdade é a maturação do corpo e a adolescência é a do ser.
Isto pressupõe no mínimo a possibilidade de ritmos diferenciados entre a parte biológica e a psicológica de cada um.
Ou seja, por mais que os corpos estejam maduros, a parte psicossocial cada vez mais tem requerido um alongamento, pois a maturidade emocional ocorre a partir da vivência e sua elaboração, diferentemente da maturidade física, que é regida basicamente pela genética e leis biológicas.
O prolongamento nos estudos devido às necessidades competitivas cada vez mais acirradas na sociedade atual, têm contribuído para que os jovens, principalmente das classes média e alta, saiam da casa dos pais cada vez mais tarde.
A adolescência é portanto o período situado entre a infância e a vida adulta e vai se configurar basicamente por uma série de mudanças em todos os níveis do ser, adicionada da experimentação de todas estas novidades físicas, hormonais, intelectuais, culturais, emocionais, sociais, morais, etc.
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Por isso mesmo, na adolescência encontramos a tendência de rompimento com os modelos pré-existentes, na busca dos próprios modelos, principalmente no que diz respeito aos padrões familiares e sociais.
O despertar para novos interesses fora do circuito doméstico contribui para se estabelecer a sua própria individualidade e descoberta das vocações.
Pode-se dizer que alguém ingressou psicologicamente na vida adulta, basicamente quando três características de comportamento foram atingidas.
São elas: Capacidade de relacionamento conjugal com estabilidade de vínculo.
Não necessariamente envolve o casamento e suas variantes.
Significa o desenvolvimento afetivo sexual, com busca de prazer na relação e na relação genital com uma pessoa com a qual se possa construir uma história, saindo da fase de experimentações conhecidas como "ficar" ou namoro de verão.
Independência econômica.
Mais uma vez, não significa necessariamente a saída da casa dos pais e a construção de um novo clã, mas sim a capacidade de trabalho e vida em sociedade desenvolvida a tal ponto que permitam a esta pessoa se sustentar sozinha.
A afirmação profissional envolve uma espera maior, mais a possibilidade de ganhos já é real.
Espírito de grupo, ou seja, desenvolver a capacidade de colaboração, podendo ceder de interesses individuais em prol dos interesses do grupo, assumindo seu papel social dentro de uma coletividade maior.
Em outras palavras, seria uma pessoa capaz de escolher não apenas objetos narcisistas.
A assunção destes posicionamentos diante da vida irá depender não só da própria pessoa e de seu potencial, mas também do contexto familiar e social aonde está inserida.
A questão dos estudos poderá afetar primordialmente as classes mais favorecidas, mas questões de ordem familiar afetarão o desenvolvimento de qualquer classe indistintamente.
Sabemos que famílias cujos genitores tiveram dificuldade de amadurecerem determinados aspectos de sua personalidade, tenderão a transmitir esta mesma dificuldade a seus filhos, uma vez que, a princípio, são eles os responsáveis pela educação e transmissão de costumes a seus descendentes.
A fórmula "Faça o que eu digo e não o que eu faço" não funciona.
Muito pelo contrário.
Não raro nos deparamos com situações onde filhos com idade de 30 anos são tratados como crianças pelos pais.
Mas não se pode esquecer que este filho aceitou este papel e se encaixou na complementariedade como chave na fechadura, configurando um quadro de comportamento específico na constelação familiar, que deverá ser visto como tal.
A adolescência deveria ser um rito de passagem na vida das pessoas, porém, devido a uma série de fatores de ordem patológica ou desadaptativa, este modelo de transicional passa a definitivo.
É como se a lagarta não saísse do casulo.
Abandonar o conforto do lar gera insegurança e ansiedade.
A princípio, o adolescente se sente só, desprotegido, incompreendido e, o que é pior, acredita ser este um problema insolúvel.
Porém, na grande maioria das vezes, a natureza segue seu fluxo normal e a necessidade de encontrar seu lugar e lutar em busca de um mundo melhor o impulsiona para a vida adulta.
Ser aceito pela sociedade ao mesmo tempo que a contesta pode gerar sentimentos conflituosos e sensação de inferioridade, porém isto é passageiro e auxiliará no processo de construção de sua personalidade.
Ele vai e volta no movimento rumo à independência até que encontra estabilidade e se auto-afirma.
Então, o segundo cordão umbilical se rompe e o herdeiro do adolescente é o adulto.
Assim como a borboleta, este novo adulto terá um colorido todo especial e poderá empreender seus vôos com segurança.


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