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A difícil arte de crescer
Margareth de Mello F. dos Reis

Visto exclusivamente pelo prisma da dor, o crescimento, no sentido de desenvolvimento pessoal, parece condenar o indivíduo a evitá-lo.
Na realidade, ao vivenciá-lo e ao enfrentar suas múltiplas facetas é que de fato alcança a liberdade.
Pensar em enfrentar uma situação, ou uma experiência nova de vida, representa um impasse bastante doloroso, que muitas vezes nos impede até mesmo de agir, em função do medo de imaginarmos um resultado que possa nos causar sofrimento.
É óbvio que existem medos e cuidados fundamentados diante de perigos reais.
Porém, se o nosso discernimento entre o que é real e o que é imaginário estiver distorcido, podemos ficar paralizados perante qualquer perspectiva de ação.
O medo de defrontar-se com consequências desconhecidas de impulsos ou idéias que nos ocorrem, pode nos remeter a uma condição de passividade, da qual somente com muito esforço poderemos sair.
Assim, vamos justificando que ainda não temos muita certeza se queríamos mesmo realizar determinada idéia ou projeto, ou porque aguardamos um outro momento por forças de interferências externas, como por exemplo, atribuindo às pessoas com as quais convivemos uma dependência que não nos permite uma mudança no projeto de vida.
Ou ainda, porque os outros não facilitam aquilo que desejamos, por isso não colocamos em prática.
A leitura destas justificativas pode revelar o quanto está ocorrendo em nós o desejo de ficar esperando que as coisas aconteçam, independentemente de qualquer esforço.
Lembrando a condição de um bebê sendo acolhido em todos os sinais de desejo de satisfação e necessidade de cuidados que emite, ficamos esperando ser supridos e alimentados por uma eterna mãe representada por todas as pessoas que julgamos capazes de substituí-la.
Só que a realidade, que não é estática, vai impondo cada vez mais situações que exigirão algum tipo de enfrentamento.
A partir desta atitude é que desenvolvemos a capacidade de lidar com o inesperado, revertendo os resultados de sofrimentos, em maneiras alternativas que possibilitem o crescimento e o aprimoramento pessoal.
Compreende-se, aqui, que ser plenamente cuidado é uma condição dos primórdios do desenvolvimento para permitir, posteriormente, avançar para a aquisição de recursos próprios e necessários para a nossa evolução.
Outra atitude é a de permanecermos num estado de eterna insatisfação e insegurança, reponsabilizando os outros pelos nossos fracassos ou, até mesmo, sofrimentos.
Aqui a pessoa considera-se enfraquecida por que não foi atendida.
Considera-se vazia por que não foi preenchida.
Considera-se mal amada por que não foi compreendida.
O diferencial entre as duas atitudes reside no fato de, na primeira, admitir que o sofrimento ou dificuldade é uma das possibilidades das escolhas que fazemos.
Nesse caso, até mesmo a frustração de expectativas por que passamos pode ser transformada em novos caminhos de realizações, desde que a vivenciemos como um referencial (ou bagagem) pessoal para as próximas experiências de vida.
Quanto à segunda atitude citada, o que se tenta evitar, e às vezes se acredita que se evita, é o sofrimento.
Neste sentido, numa atitude pueril, busca-se aparelhar-se de recursos para não sucumbir à realidade que se teme.
Escamoteando a própria fragilidade, recorre-se à teorização, à idealização de valores e a julgamentos preconceituosos sem de fato vivenciá-los.
Na imaginação tudo é perfeito, tudo é controlável, tudo pode existir da maneira de que desejamos.
Não há lugar para frustrações, apenas para a criação imaginária de entidades que cumpram o dever de propiciar a plenitude fantasiada.
DESAFIOS DA VIDA: Assim, o risco de responsabilizar-se e de arcar com consequências fica afastado.
Em outras palavras, fica projetado nas pessoas que se relacionam com o indivíduo.
Se, por um lado, o indivíduo se preserva dos seus temores, por outro ele fica confinado numa redoma que não oferece alternativas mais criativas.
Torna-se insaciável porque só deseja receber sem dar nada em troca, elegendo como fonte doadora aqueles que possuam o que ele deseja e que gostaria de possuir.
Não concebe a importância e até a possibilidade de protagonizar a sua própria história.
Ancora suas necessidades no mundo externo, legitimando a sujeição à cuidados permanentes.
Acaba se colocando no mundo sem se dar conta dos benefícios que deixa para trás e que poderia ter se fosse outra a sua postura.
Não percebe que a atitude de evitar sofrer, contém em si mesma uma perda de qualidade existencial, pois evitar desafios consequentemente não oferece a chance de superá-los.
É equivalente ao comportamento de uma criança que não entra numa brincadeira porque não a conhece e, por medo de ser ridicularizada perante os colegas, alega não querer ou não gostar de brincar.
Dessa forma, ela evita um sofrimento que teme, porém acaba deixando de se integrar com os outros.
Para suportar o inncômodo resultante que fica, a criança cria solicitações artificiais, exigindo cuidados especiais das pessoas que a atendem, para escapar do mal-estar que a situação com os colegas causou.
Caso não seja reconhecida a verdadeira causa do incômodo e nem seja criada uma condição para enfrentá-la, a tendência é escapar do confronto com a realidade, por imaginar sempre um resultado insuportável.
O que o confronto com a realidade pode proporcionar é a surpresa de, apesar do resultado, no mínimo ganharmos um novo peso existencial.
Isto não significa termos de nos colocar diante de todos os desafios da vida, mas podermos detectar quais deixam marcas de desconforto por não tê-los experimentado.
Não é à toa que a frase "só me arrependo do que não fiz" está presente frequentemente na boca das pessoas.
Essas marcas de desconforto do que não foi experimentado, podem ser identificadas, na maioria das vezes, disfarçadas através de críticas severas ou julgamentos destrutivos dirigidos àqueles que presenciam o que não estamos sendo capazes de enfrentar.
Porém, se isso fosse algo tão supérfluo e tão descartável do nosso desejo, porque nos mobilizaria tanto? Nesse sentido, podemos pensar que a pessoa que adota essa conduta de constante discordância e incômodo em relação aos outros, na verdade não está podendo identificar que a insatisfação é consigo mesma.
Em outras palavras, sente-se impotente para realizar o que outras pessoas realizam e transformam sua impotência em artifícios para denegrir a conquista daquele, que, em sua fantasia, é percebido como um rival.
Contudo, o que alimenta interiormente esse procedimento é o sentimento de inferioridade e de menos valia impedindo a pessoa de somar e compartilhar na praxis humana, bem como de descobrir seu potencial e suas limitações.
Temos também as relações de dependência, na qual a convivência com este processo atinge inevitavelmente todas as partes envolvidas.
É como imaginarmos a mãe que se precipita para resolver as questões para as quais o filho já tem maturidade para começar a solucionar sozinho.
Ela julga que sem esta função não lhe resta mais nada para se sentir valorizada.
Por sua vez, o filho pode se sentir beneficiado e isento de cumprir determinadas responsabilidades.
Todo este movimento denota um dispêndio de energia sem resultado confortável e ambos deixam de confrontar suas fantasias temidas com a realidade.
BUSCANDO A LIBERDADE Como essas condutas acabam se repetindo em hábito que nem sempre paramos para questioná-los, guardamos para nós mesmos e para as nossas relações mais íntimas e significativas a nossa decepção para com a vida: "Será que é só isso que me resta?" ou "Para mim é sempre assim!" ou ainda, "Comigo tem que acontecer desse jeito".
Pensar em transformação requer uma avaliação dos "pseudo-benefícios" que desenvolvemos para encobrir a nossa fragilidade.
Para tanto, é preciso tentar romper com os fantasmas que nos assombram para promovermos a descoberta do nosso raio de ação.
Sentir-se impedido para ampliar o leque de possibilidades que a vida oferece pode revelar conteúdos primários da nossa própria história, que não puderam ser revistos ou atualizados.
É necessário desenvolver a sensibilidade para discriminar o que é real do que é imaginário, ou seja, o que podemos constatar na experiência prática da vida daquilo que foi construido a partir dos nossos temores e ameaças.
Este exercício é penoso na medida em que temos de reconhecer em nós próprios o que atribuímos ao mundo externo.
Causa um certo desequilíbrio por conflitar com a suposta comodidade que a conduta anterior oferecia.
Por outro lado, podemos ter a grata satisfação de descortinar o caminho que conduz ao crescimento.
Mesmo que longo e sinuoso, este caminho é a chance de escrevermos a própria história.
Assim, o sofrimento pode ser interpretado como parte de um processo que tem como resultado benéfico a abertura dos caminhos que levam o indivíduo a alcançar a liberdade e o desenvolvimento pessoal.
É o preço e a sua respectiva contrapartida.


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