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RELAÇÕES AMOROSAS: NOVAS FÓRMULAS OU VELHOS PADRÕES?
Margareth de Mello F. dos Reis

Depois de homens e mulheres terem conquistado a plena liberdade no que se refere às suas sexualidades, parece que se criou a lógica do quanto mais, melhor.
Entretanto, esta lógica não foi suficiente para suprir uma demanda afetiva que continua insatisfeita, caótica e de onde saem experiências novas (novas?) como o " ficar ".
Da proposta do relacionamento amoroso convencional – expressa nos termos “unidos até que a morte os separe”-, para as alternativas de ligações amorosas atuais – representadas pela multiplicidade dos termos usados para caracterizar o momento amoroso de um par - , observamos estender-se um terreno árido, onde as pessoas têm se distanciado cada vez mais umas das outras.
Atualmente, as tentativas de denominar uma relação amorosa parecem conter muito mais uma forma de oposição aos resultados indesejáveis do modelo tradicional, do que uma efetiva possibilidade de mudança na qualidade dos envolvimentos.
“Amizade colorida”, “ficar”, “transar sem compromisso”, entre outros termos, compõem um quadro de palavras que veiculam significados diferentes de modos de relacionamentos amorosos, calcados na maior liberdade de expressão da sexualidade, nos quais se busca, por exemplo, estar junto, mas com a liberdade para continuar, buscando e buscando.
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O que?! Nos dias de hoje, grande parte dos que “optam” pelo modelo de casamento formal, parecem ter a necessidade de justificar o intento, de forma que fique anunciado que, se não der certo.
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partem para outra “numa boa”.
Desta forma, ficam assegurados de que nada detém as buscas que julgarem necessárias para levar ao prazer e à felicidade.
Ter uma postura diferente do que presenciam em relação à história de vida conjugal dos pais, ou dos que permanecem numa relação considerada desatualizada e insatisfatória, parece estar representando imaginariamente, neste momento, um grande avanço em direção ao sucesso no território da vida sentimental.
ANTES SÓ DO QUE MAL ACOMPANHADO A fantasia criada em torno dos desencontros que se enfrenta nesta atmosfera de modernidade pode ser a de que não encontremos alguém suficientemente capaz de nos entender.
Qualquer eventualidade que se apresente ao casal, por pequena que seja, confirma e perpetua o estado de “eternos claudicantes”.
Ora desconhecemos os nossos desejos, ora protestamos contra o que acreditamos nos impedir de realizá-los; mas não paramos para pensar na essência que sustenta as nossas buscas.
Somos atingidos pela exposição maciça que os veículos de comunicação fazem, das frenéticas tendências que o universo das combinações amorosas oferece, e criamos expectativas em relação a modelos ideais e a estereótipos sobre-humanos para garantir o prazer e a completude.
Nesta conjetura estabelecemos exigências, e somos exigidos por critérios que transcendem a condição humana, até chegarmos a exaustão que concretiza o dito popular antes só do que mal acompanhado”, que vem funcionando como um outro pólo das variações existentes.
Só que, mesmo abandonando, temporariamente ou não, um projeto amoroso, não descartamos sua importância, ainda que seja pela lástima de sua ausência ou pelas atividades que escolhemos para substituí-lo.
Precisamos de uma forma de expressão para os sentimentos que emergem dos nossos desejos e, na ausência ou na insatisfação do que possa nos atender, nos tornamos vulneráveis a qualquer “imposição potencial que nos circunde.
Neste caso, a superficialidade desenvolvida como um artifício de proteção para escapar de um envolvimento, nos contatos amorosos atuais, pode criar uma odisséia com reveses inesperados nessa área, pela inconsistência emocional decorrente do desenvolvimento entre o que é aparentemente vivido e o que é efetivamente sentido.
Por um lado, tende-se a reverenciar os discursos apologéticos sobre a liberdade de explorar a diversidade e a transitoriedade dos relacionamentos, com a idéia de que se está tirando o melhor do que a vida pode oferecer.
Será? Por outro, tende-se a sentir que o melhor é sempre o que ainda não foi atingido, e, por conseguinte, quem está ao alcance é tido como insuficiente e pouco motivador para um aprofundamento amoroso.
Com esta postura de distanciamento emocional, podemos estar nos aventurando em nossas experiências sentimentais, baseados em premissas que nem sequer paramos para questionar como foram construídas, ou por que as mantemos.
RECONHECENDO-SE PARA CONHECER O OUTRO Aprendemos, desde muito cedo, a aceitar prontamente modelos que internalizamos como verdades absolutas, e negligenciamos nossa condição singular de sermos responsáveis pelo nosso projeto de vida, o que implica em correr riscos e assumirmos responsabilidades pelas nossas escolhas.
Sob este aspecto, deixamos em nós mesmos qual o crivo que estamos utilizando para selecionar um encontro na área dos sentimentos.
Sem este conhecimento interior, o grau de compromisso e de investimento na direção do que realmente poderia nos elevar e nos gratificar nessa esfera, se neutraliza.
As experiências realmente vividas nas relações ficam sempre aquém das expectativas que não foram e não podem ser contempladas pelos parceiros, pois divergem do padrão de relacionamento que aparentemente fora valorizado dentre as ofertas atuais.
Como o universo de alternativas “criadas” para satisfação imediata dos vazios existenciais tende ao infinito, (e muitas vezes não tem a ressonância esperada por ser seu resultado efêmero), ao desfilar frente aos nossos olhos, pode confundir-se com nossas supostas vontades, e o risco de estarmos “abrindo portas” para sucessivas decepções nem sempre é percebido ou até mesmo considerado.
Tornar um relacionamento prazeroso e atualizado, no tempo e no espaço, implica no reconhecimento das expectativas pessoais e na disponibilidade mútua de integrá-las para atingir um objetivo comum, apesar das diferenças.
Isto requer, muitas vezes a superação de medos e de inseguranças, e, fundamentalmente, a disposição para comprometer-se e envolver-se abertamente com a escolha feita, o que permite que duas pessoas promovam a aproximação que pode conduzir a um clima de troca satisfatória entre elas.
Nesta perspectiva, se tivermos conhecimento das nossas possibilidades e das nossas limitações em relação ao que desejamos, e isto coincidir com o que podem nos oferecer aqueles que encontramos, vale a pena “ficar” (por um momento com alguém), ou “Ter a vida toda” para não se arrepender de Ter com quem compartilhar o que realmente se valoriza no convívio a dois.


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