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Livros de Auto-Ajuda Leitura que não é só passatempo
Margareth de Mello F. dos Reis

O que impulsiona o comprador a eleger com tamanha voracidade essa classe de leitura, como se tem percebido pelas estatísticas deste momento atual? Primeiramente, podemos pensar na grande variedade de oferta disponível nesse segmento para ser desfrutada.
Num segundo momento, podemos imaginar o consumidor diante de uma proposta de como solucionar algum problema que o impede de sentir-se realizado, ou até mesmo como alcançar um nível de reconhecimento pessoal que sempre fora muito desejado.
Os livros de auto-ajuda demonstram os passos considerados adequados para resolver um problema em torno de uma temática.
A respeito desses passos estão contidas informações acerca das possíveis variáveis que podem interferir na realização ou no resultado das tarefas propostas, bem como algumas alternativas para se lidar com elas.
Desta forma, tanto o objetivo do manual (ensinar didaticamente) como o objetivo do leitor (aprender a resolver um problema) a princípio estão em absoluto acordo.
E é certo que muitas pessoas se beneficiam e promovem, através deste exemplo de leitura, uma transformação visível em suas vidas.
Existem até aqueles mais entusiastas que recomendam para todos os amigos a leitura que os transformou.
O que se constata, também, é um número razoável de pessoas que, após uma dedicação significativa às orientações contidas nesses manuais, não solucionaram o que tanto desejavam.
Só que com um agravante: como depositaram na leitura as expectativas para atingir os seus sucessos pessoais, após a leitura, tendo constatado não terem atingido o que desejavam, passam a sentir um fracasso generalizado, antes não experimentado.
Não é novidade que, através das informações que recebemos ao longo do nosso desenvolvimento, é que vamos concebendo o mundo em que vivemos e as suas caraterísticas mais essenciais para a nossa sobrevivência (noções de satisfação dos nossos desejos, de perigo, de alegria, de tristeza, de medo, entre outras).
Somos lançados num mundo que já está construído ao nascermos, e a nossa construção particular desse mundo depende sobremaneira da forma como recebemos as mensagens do meio do qual fazemos parte, bem como dos sentimentos que nos despertam tais vivências.
O esforço empreendido nesse processo concentra-se, em grande parte, na adaptação às exigências que nos cercam, com o propósito de sermos aceitos e de não nos antagonizarmos com aqueles que valorizamos à nossa volta, como também pelos benefícios que contabilizamos com tal procedimento.
Os comportamentos largamente reforçados e valorizados pela sociedade, tais como :”ser bonzinho”, “respeitar os superiores”, “não demonstrar que se magoou”, “não sentir raiva”, “controlar-se”, “comportar-se adequadamente”, “não Ter pensamentos ruins”, “não chorar”, dentre muitos outros, são os mesmos que não nos permitam dimensionar a qualidade das emoções acerca das nossas experiências, e nem tampouco descobrir nossos recursos pessoais para administrá-las.
As habilidades, iniciativas, sensibilidade, assertividade, ou as dificuldades, os temores, os bloqueios, a insegurança etc.
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, que se apresentam nas questões práticas do cotidiano da vida das pessoas, dependem das oportunidades que tiveram para conduzir-se numa determinada direção, ou em outra.
Em outras palavras, a presença ou ausência do aprendizado de como lidar com as nossas emoções, desde cedo, em nosso desenvolvimento, pode tanto enriquecer as nossas experiências quanto torná-las desastrosas ou insatisfatórias.
Desta maneira, o caráter muito particular na forma como cada pessoa interage diante dos acontecimentos advém da integração dos aspectos do conhecimento, dos sentimentos e do resultado das aprovações e desaprovações vivenciadas em sua história de vida.
Sob esta ótica, o mesmo estímulo, acontecimento ou evento, para cada pessoa que o perceber, terá uma interpretação de acordo com as leis (cognitivas, afetivas e motivacionais) que a regem.
Obviamente que essas leis não são estáticas, mas sei movimento no sentido de transformação depende essencialmente da base em que se encontram estruturadas.
Por isso, uma informação nova a respeito de uma velha dificuldade ou de um recente interesse pode ser semelhante à “peça” que faltava para completar um “quebra-cabeça”, pois as outras “peças” já existiam e já tinham sido articuladas anteriormente.
Faltava alguma coisa que não se sabia exatamente o que era, mas uma vez encontrada, reconhece-se que é a medida certa para completar aquele espaço disponível.
Porém, se considerarmos a tentativa de aproveitamento da mesma “peça” do exemplo anterior a outras “peças” que não se articulam para formar uma determinada figura, teremos apenas uma porção de “peças”, sem idéia do que fazermos com elas.
Ou pior, ficamos com a impressão de que cada “peça” a mais só nos faz nos sentirmos mais incapazes para concluirmos o tal do “quebra-cabeça”.
Neste caso, o que se pode pensar é que o plano da cognição ou da razão não é suficiente para garantir uma determinada prática, se não estiver em acordo com o plano do emocional, do sentimento ou do afeto.
E um livro.
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não vem acompanhado da presença de um profissional habilitado que colabore com a decodificação dessas reações emocionais decorrentes do que foi mobilizado pela leitura.
Sob esta perspectiva, o valor do livro de auto-ajuda está em representar um meio facilitador, que contém um referencial diferente do qual se possuía, para ser comparado aos que foram construídos por nós ao longo da nossa existência.
Essa possibilidade de estabelecer novos parâmetros para os conflitos que persistiam, independentemente da nossa vontade, pode significar um meio (ou um primeiro passo) para nos lançarmos a novas experiências, e nem sempre a um fim em si mesmo, como às vezes é esperado.


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