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Homossexualidade
Margareth de Mello F. dos Reis

A homossexualidade ainda é percebida, especialmente entre leigos, como um estigma, uma doença ou, o que pode ser pior, uma demonstração de sem vergonhice propositadamente cometida.
O aspecto mais básico do problema é o educacional, pois a sexualidade ainda é passada como algo de sujo, de ruim, de vergonhoso, especialmente no que diz respeito às suas manifestações entre as minorias sexuais.
Claro que se passamos a uma criança a idéia de ser o homoerotismo uma distorção, será muito difícil que mais tarde ela possa vir a ter uma visão menos preconceituosa a respeito.
Estudos demonstram que crescer é basicamente uma questão de moldagem, de ajuste a uma sociedade.
É um processo vital, pois nenhum de nós poderia sobreviver por muito tempo sem ser membro de algum grupamento social.
Se os estereótipos culturais dessa sociedade forem demasiadamente rígidos, eles impedem o crescimento dos seus membros, instalando-se a estagnação.
Observa-se que tal rigidez pode mutilar a mente dos indivíduos de forma tão grave e permanente como o costume de atar os pés mutilava antigas gerações de mulheres chinesas.
No entanto, se os estereótipos forem amorfos demais, a sociedade fracassa em prover seus membros dos meios necessários para a cooperação, e em pouco tempo se desintegra.
A tendência dos estereótipos culturais em resistir à mudança é essencial para a manutenção da sociedade, mas a flexibilidade é fundamental para a saúde, tanto da sociedade quanto de seus membros.
É essa flexibilidade que oferece a oportunidade de se atingir o "ponto-chave" de compreensão e postura diante de novos conceitos e acontecimentos.
E é justamente em sua ausência que as incompatibilidades quanto à homossexualidade repousam e criam seus mais diversos modos de encará-la, e por que não dizer, de abordá-la.
Sendo o homem um ser bio-psico-social, enquanto bio, podemos entender que ele nasce, entre outras características, com as fisiológicas, que faz indivíduos homens ou mulheres.
É enquanto psico que ele aprende a expressar, isto é, a transmitir a sua sexualidade dentro de um contexto.
E é o componente social propriamente dito que determina terem as pessoas do sexo masculino de serem machos, enquanto as do sexo feminino devem ser femininas.
Com isto, quando o ser humano se percebe portador de desejo por outro do mesmo sexo, ele entra em dissonância (crise), porque aquilo que ele sente não combina com o que é determinado socialmente.
A questão da condição afetiva é determinada e aceita, socialmente, a partir da heterossexualidade.
A mulher deve escolher o homem, o homem deve escolher a mulher, e essa escolha deve dar prazer, ser satisfatória e coerente.
E é justamente aí que reside a incoerência, pois a orientação do desejo em relação à parceria afetiva é individual, pessoal.
Neste sentido, a homossexualidade se caracteriza pela orientação do desejo afetivo-sexual por alguém do mesmo sexo, isto é, por um objeto amoroso e não pela escolha de um estilo de vida.
A confusão entre a condição homossexual e a escolha de vida representa grande parte do sofrimento emocional que experimentam as pessoas que têm dificuldade em conciliar a sua orientação sexual com o contexto social.
Ou seja, se a homossexualidade é vivida como uma escolha de vida, ela tende a se manifestar em todas as áreas de inter-relação do indivíduo.
No entanto, por temerem antagonizar-se ou serem rejeitados por essa condição homoerótica, os homossexuais empreendem um enorme esforço no sentido de expressá-la apenas nos "guetos", tentando escondê-la de outras situações do cotidiano.
Ou, ainda, podem adotar uma outra postura: a de luta incessante pela aceitação social de sua condição sexual.
O que podemos contemplar é que não existe uma forma homossexual de lidar com o mundo, de ver a realidade, que não seja a estereotipada ou estigmatizada, ditada a partir da heterossexualidade.
Exemplo disso é acreditar que o homossexual assumido é aquele que expressa características do sexo oposto.
Ora, se o conceito de homossexualidade nos diz ser essa condição uma orientação amorosa por alguém do mesmo sexo, assumir características do sexo oposto, neste caso, é reproduzir (se bem que até inconscientemente) o modelo heterossexual, onde para se formar uma parceria, um deve ter as características de homem e a outra pessoa as de mulher.
O que se deve ponderar, quando necessário, é o uso que a pessoa faz da sua sexualidade.
É nesse uso que podemos nos deparar com prostituição, comportamentos sexuais bizarros, ligações de dependência patológica, por exemplo.
A resolução quanto à própria sexualidade reside no fato de perceber-se capaz de seduzir, ser seduzido, e, principalmente, poder discriminar nessas situações com quem se deseja um envolvimento maior pelo nível de satisfação e prazer que essa afinidade amorosa possa proporcionar.
Sob esta ótica, a homossexualidade pode ser considerada uma variante normal do comportamento sexual, assim como, as diferenças inerentes à condição humana.


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